
Eu, com apenas 14 anos de idade, nem imaginava que isso estava acontecendo nos grandes centros do meu país. Mesmo porque eu travava outra guerra. E não era com o Exército Brasileiro, mas com um exército de micróbios que havia se alojado de uma parte do meu esqueleto.
Não sei se era uma batalha igual ou mais difícil do que aquela que os estudantes e intelectuais travavam contra o governo carrasco. Mas sei que era muito difícil para todos, principalmente para mim e para os meus pais.
Os meus inimigos, de tão pequenos, eram invisíveis, e se a ditadura amordaçava, prendia, torturava, humilhava e provocava terríveis dores aos homens que a enfrentava, a minha batalha não era diferente. Eu também sofria, gemia, perdia peso e ficava preso, não na cadeia, mas numa casca branca de gesso, feita especialmente para me imobilizar.
Foram anos de luta contra o exército invisível! Foram oito meses de imobilização!
Fiquei proibido de correr, de estudar, de brincar com carrinhos, de tomar banho de lagoa, de subir em árvores, de brigar e brincar com os outros meninos... Enfim, fiquei proibido de ser criança.
Sofri e fiz sofrer aqueles que me amavam, e, por isso, o meu sofrimento era dobrado. Mas nem por isso maldizia a sorte. Tudo sofria, tudo suportava e tudo levava-me a crer que tudo passaria.
Tinha a meu favor a juventude, o otimismo e a curiosidade. Aquela batalha, que tanto sofrimento causava a todos, causava-me também certa excitação, pois me tirou do meu mundinho limitado e provinciano. Fez-me conhecer pessoas e coisas diferentes. Fez-me falar ao telefone pela primeira vez e, também, pela primeira vez, andei de elevador. Descobria ali o meu admirável mundo novo.
Um dia, já em “liberdade provisória” e de muletas, pois os homens da ciência (ainda bem que não eram os de Geisel!) haviam serrado os meus grilhões (o gesso), estava com o meu pai em mais um retorno médico. Fomos informados, então, de que os exames requisitados não poderiam ser feitos ali. Somente no Hospital de Clínicas.
Mais um desafio para o meu pai, que me levava ao médico graças ao sacrifício de uma galinha, subtraída do quintal da nossa casa e vendida por alguns Cruzeiros. Mas, com 14 anos eu não entendia que, pela democracia do nosso país, pessoas estavam sendo assassinadas pelo governo militar. Também não entendia as limitações financeiras do meu pai. Eu pensava que, apenas por ele ser grande e eu pequeno, isso não era tão difícil para ele. Eu sofria por outros motivos. Sofria se ele ou minha mãe me vissem chorando de dor.
Mas, eu, com minhas muletas, não estava sentindo dores agora. Estava curioso, pois, outrora, haviam me informado que, daquele hospital onde faríamos novos exames, era possível avistar o mar.
Como eu estava feliz, mesmo percebendo o desapontamento do meu pai!
E ele, percebendo a minha excitação para conhecer as águas que nos separam do continente africano, mostrou-se solícito. E eu, pequeno, frágil, porém astuto, logo senti que podia persuadi-lo.
Caminhamos até uma espécie de muro que separava o hospital de um precipício e subitamente uma brisa, suave e salgada, acariciou-me o rosto e agitou os meus cabelos, na época, tão fartos. Os meus olhos também não resistiam ao espectro de descobrir aquele que eu somente conhecia por intermédio das narrativas da minha mãe: "O mar é azul", "O mar tem ondas perigosas", "O mar não tem fim". Era isso o que eu sabia sobre o mar.
E finalmente lá estava ele: maravilhosamente grande e diferente do que criara em minha imaginação. Mas tinha ondas, parecia infinito e era azul.
E que azul!! Um azul tão intenso que se confundia com o céu.
Se naquela época conhecesse Fernando Pessoa e sua obra, logo teria me lembrado do seu poema Mar Português, em Mensagens: “(...) Deus ao mar o perigo e o abismo deu/Mas foi nele que espelhou o céu”.
Mas, lembrei-me da minha mãe e das inúmeras estórias que ela nos contava envolvendo o mar.
Estava inquieto. Queria mais. Queria chegar mais perto. Andar na areia, pegar naquela água com as mãos, talvez! Era querer muito mais do que o meu pai podia me dar, sobretudo para um menino de muletas e tantos obstáculos até a beira mar.
Mas o meu pai, bondoso e compreensivo, sentia o meu coração palpitar de emoção ao me deparar com aquela obra da Natureza. Foi cedendo aos meus apelos para descer um pouquinho, só mais um pouquinho e... pronto: lá estava eu, caminhando ao seu lado e, literalmente, diante do mar. O mar que eu só conhecia na minha imaginação, com o auxílio da minha mãe.
Mas, eu queria mais. Pedi ao meu pai para segurar as muletas, aproveitei uma onda que parecia estar me dando boas-vindas, apanhei um pouco d'água com as duas mãos e levei à boca. Queria sentir o sabor daquela que diziam ser salgada. E senti.
Senti o sabor da água do mar e senti o tamanho do amor que o meu pai sentia por mim.








